Compositor: Quietanto
Hoje eu virei uma caixa de fotos na mesa da sala
E vi um moleque em mim que eu não deixei sair pra rua
Eu vivia ocupado em salvar o amanhã que nem tinha chegado
Roendo o futuro como chiclete, sem resolver conta nenhuma
Eu tinha o corpo inteiro e achava pouco
Me via torto em qualquer espelho de vitrine
Agora eu enxergo ali, na borda das imagens
Um mundo aberto que eu deixei pra depois de quando der
Eu devia ter dançado mais no meu quarto
Devia ter cantado alto, mesmo fora do tom
Devia ter cuidado melhor dos meus Joelhos
Pra ainda correr atrás do que me chama hoje
Eu digo pra mim
Eu não vou mais gastar meu dia com inveja
Às vezes eu ganho, às vezes eu apanho, e tudo bem
No fim das contas, é só eu contra eu
E eu escolho ficar do meu lado também
Eu lembro das vezes que pesei a mão no coração dos outros
Brinquei de ir embora sem pensar no tanto que doía
Hoje eu protejo o meu, mas abro espaço na mesa
Pra quem chega inteiro, não só pra quem chega bonito
Guardo num envelope velho os elogios que não esqueci
E jogo fora extrato, prazo, taxa e senha
Descobri que vale mais a carta torta que me escrevi
Do que qualquer saldo que a ansiedade desenha
Eu devia ter enfrentado um medo por dia
Uma conversa difícil, um salto no desconhecido
Agora, devagar, eu treino a coragem atrasada
Como quem alonga o corpo antes do perigo
Eu digo pra mim
Eu não vou mais gastar meu dia com inveja
Às vezes eu ganho, às vezes eu apanho, e tudo bem
No fim das contas, é só eu contra eu
E eu escolho ficar do meu lado também
Naquela terça-feira morta, quatro da tarde no relógio
A vida me pegou num flanco que eu nem sabia que existia
Não era o medo que eu ensaiava, era outro, sem nome
Desde então eu aprendi que o susto nunca manda aviso
Hoje eu me estico no tapete, escuto minha respiração
Aprendi a cuidar desse corpo que um dia eu zombava
Ele é o único instrumento que eu realmente comprei
Parcelado em anos, mas à vista de alma
Eu digo pra mim
Eu não vou mais gastar meu dia com inveja
Às vezes eu ganho, às vezes eu apanho, e tudo bem
No fim das contas, é só eu contra eu
E eu escolho ficar do meu lado também
E se eu tiver que dar um conselho pra mim, agora
Eu me protejo por fora e por dentro
Do sol, da culpa, do medo do espelho
E sigo, mais leve, como quem enfim se perdoa